quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Um Semeador Saiu a Semear...



O que ocorre no coração desse que se lança a uma tarefa fácil ou não?

Certezas, dúvidas...

Expectativas, perguntas...

Medo, silêncio...

Confiança, oração...

Valores, desistências...

Insistências, inseguranças...

Desconfianças, vergonhas...

Não se sabe, não se sei, não se contem, mas é preciso tentar, é preciso navegar, pois não é preciso ter certezas, mas acreditar nelas...

Fé é a experiência mais concreta, ainda que se diga o contrário, é como a incapacidade de vivermos sem ar.

A alma se alimenta de certezas, ainda que não as possua, mas apenas o incompreensível sentimento que nada e ninguém pode roubar-lhe: o sonho.

Ir em frente, ver onde nada há para ser visto.

Sorrir , ainda que em meio a trovoadas e escassez

Esperar, ainda que não haja estação, portos ou estradas que traga alguém

Loucura, devaneios, surtos, são molduras de um quadro de equilíbrio e sensatez

Nascimento virginal, Encarnação, Deus homem, Crucificação divina

Sonhos, sorrisos, mergulhos, confiança, paz

Continuarei aqui, e lhe convido também a continuar

Qualquer dia desses a gente se encontra aqui ao mais perto Dele, pessoalmente.

Sai semeando, por certo algo ocorrerá, estou esperançoso nisso

Sem certezas, elas roubam a vida, nos impedem de depender de quem as tem


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

GENTE! GENTE, GENTE!


“eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim.”Jo 17.23





Não me parece que a comunidade de Jesus Cristo considere esse fator como um dos mais importantes para a inspiração da Igreja e crescimento do Reino de Deus.


É mais fácil considerarmos que uma igreja não pode mais funcionar sem uma boa ambientação do ar condicionado.


O som e instrumentos musicais, ainda que não sejam de altíssima tecnologia, deve ser algo que faz lembrar o profissionalismo um dia só visto pela TV, mas que agora consomem vultosas quantias, pois a competição é grande e se não tivermos um som pancada, a moçada vai embora para outras comunidades em que há um investimento pesado de som e imagem.

Cada vez mais a parábola do Mestre sobre a ovelha perdida vira conto da carochinha, pois o que na verdade vemos é um evangelho vociferado por líderes apaixonados por multidões e rebanhos milhonáveis, mas cada vez mais distanciados do coração da ovelha.


Recentemente soube de pesquisa que revelou que o item mais importante que faria um evangélico escolher uma igreja seria se ela tivesse espaço seguro para guardar seu automóvel, lembrando uma fria e objetiva relação de consumo, ou seja, se sou atendido satisfatoriamente, então referendo o  produto.


Ser moralista é o que menos ajudaria nesse momento gelatinoso em que nada é absoluto e consistente, tudo parece fugaz e relativo, a não ser o desenfreado desejo do Ser em alcançar satisfação e plenitude.


Pensar uma igreja que responda às necessidades do ser humano, pois afinal foi para esses que Jesus encarou a braba missão de mesmo sendo Deus, vir passar alguns anos aqui entre gente como eu e você; gente estranha e desafiadora, que por vezes encara o periférico como essencial e o relativo como absoluto, e somente por isso fomos capazes de crucificá-Lo.


Estou escrevendo para tentar ser ouvido. Estou escrevendo, pois sonho em sensibilizar alguém além de mim mesmo. Estou escrevendo para que meu senso de loucura diminua. Estou escrevendo, pois como tenho a arrogância profética em minha alma, na verdade acabo achando que vou salvar alguém. Estou escrevendo porque ao fazê-lo me sinto vivo e humano, capaz de lutar, enquanto for possível, por algo que acredito. Estou escrevendo para aplainar minha solidão profética.


Acho que Jesus, como uma criança que sonha comprar uma casa para que todos os seus familiares morem juntos – atire a primeira pedra quem nunca teve esse sonho tolinho – acho que ele acreditava ser possível que um dia sejamos unidos, irmãos de fé e de prática, gente esvaziada da matéria e cheia de afeto.

Acho que Ele pensou que fosse possível que um dia sua igreja desse importância ao que de fato importa e tem valor: GENTE!

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sorte ou Oportunidades?


         Assassinado pela PM. Dependente químico. Ambulante. Vendedor de passarinho. Cabo da PM expulso da corporação e lanterneiro em oficina de fundo de quintal. São atividades profissionais, ilícitas ou não, de alguns de meus amigos de infância.


         Eu poderia estar retratado no quadro acima, mas não estou. Fugi do presídio existencial de milhares e milhares de vagas destinadas a negros e brancos carentes, escapei pela porta da frente à luz do dia...

          A sortuda “mamãe áfrica” enquanto contornava as unhas dos pés de sua mais nova cliente narrava seus dramas e dificuldades, e especialmente uma frase “arrebatou” o coração de sua cliente: “Não vou criar meus filhos para comerem de marmita”..


          A cliente classuda era dona do 2º melhor educandário do subúrbio de Colégio, Rocha Miranda, Coelho Neto, Vila Santa Tereza e Honório Gurgel – Instituto Azevedo Correa. Propôs à minha mãe um contrato de risco: “Dou bolsas de 100% aos seus filhos – eu e Sérgio - conquanto eles tirem, em todas as matérias, em todos os anos, nota mínima “oito”. Um verdadeiro estupro pedagógico. Eu nunca pensei que pudesse agradecer a Deus por ser estuprado.


Essa era uma exigência de seu sócio, o Prof. Airton, que era absolutamente contrário a tal concessão. O que aconteceu?


           Precisamos, os negros, brancos, índios, nordestinos, todos,  de oportunidades e não de sorte!


 Costumo dizer em minhas palestras que não sou exemplo de vida para os negros, pois o que aconteceu comigo foi pura sorte, e quando me acusam de ser hábil e inteligente, sinto que esses talentos talvez estivessem a serviço de um mundo torpe, não fosse a sorte ter me achado.


Se sou a favor do sistema de cotas? Claro que não! Pois é de fato indigno que um não negro ou não pardo seja preterido de seu futuro por secção racial, pois a solução está em a sociedade entender que os negros não querem fugir dos presídios existenciais através da senha chamada sorte. É um acinte o sistema de cotas.


Os governos Federal, Estadual e Municipal deveriam providenciar oportunidades às “mamães-áfricas” para deixarem seus filhos em ambiente escolar digno e saudável enquanto vão em busca de seus sonhos.


            A sociedade deveria ouvir o som da Dona Edir e se espelhar em seu exemplo solidário e entender que não faz favor, mas é gesto digno, parceiro, comum, estrutural, promover rampas de acesso às empresas, cursos comunitários, programas de incentivo à cultura, lazer, esporte, arte, entre outros.


O que aconteceu? Nunca estudei em escola pública, formei-me honrosamente no Instituto Azevedo Corrêa, cheio de medalhinhas no peito – quem tem mais de 50 anos se lembra das medalhas aos melhores alunos – Passei, por concurso, para o Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro, mantido pelo Ministério do Exército, de lá fui para o Colégio Naval, Escola Naval, de onde saí sem me formar. Sou Pastor, Professor e Psicólogo. Mestre em Teologia e pós-graduado em filosofia, ambos pela PUC/RJ.


           Não sou exemplo para os negros, mas sim para os “BRANCOS”, estampados no exemplo do Prof. Airton, símbolo de uma sociedade fustigante, hipócrita, cínica, indiferente e alienada, que nega dignas oportunidades para os negrinhos nossos de cada dia. 


 A sociedade fala e deseja paz, mas de paz não entendem, pois convenientemente acreditam que ela é fruto do silêncio dos mais fracos politicamente que, sem instrumentos de realização, não alcançam a visibilidade necessária para serem ouvidos.


           Se sou a favor do sistema de cotas? Claro que sou, pois enquanto a estrutura social negar aos negros e brancos pobres oportunidades dignas e os obrigar a fugirem dos presídios existenciais apenas através de um golpe de sorte, como em cassinos ou jogos de cartas, não teremos outra saída, se não, “trapacearmos”  e continuar a sermos tratados e vistos  como pedintes, favorecidos, protegidos.


            A solução é simples, não é racial, mas sim política e social. É só os governos Federal, Estadual e Municipal promoverem oportunidades a todos, brancos, não brancos, crédulos, não crédulos, comuns e especiais. Aí finalmente poderemos contemplar não um sistema de cotas raciais, mas um sistema de igualdades de oportunidades.



terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Muitos e bons sonhos em 2012.


“[...] os olhos são a janela da alma [...]”  Mateus 6.22


Essas palavras foram ditas pelo Mestre em torno do sermão do monte. Ele falava predominantemente para gente sem fé no futuro; gente pobre, em sua grande maioria, e absolutamente inculta; gente maciçamente analfabeta; crianças à margem da escolarização; mulheres desprezadas e indignamente tratadas como objetos de uso e desuso; pessoas que desconheciam o sentido da palavra respeito. Falava a prostitutas, zelotes, publicanos, escravos, indigentes, cegos e paralíticos. Falava aos leprosos, tuberculosos, e tantos outros doentes considerados endemoninhados, gente, que, segundo os religiosos fariseus, não repousara a graça e a bênção de IAVÉ. E, por isso mesmo, acreditavam que se faziam revelar de forma inconteste as marcas do seu pecado, latente no corpo através das muitas chagas e doenças repulsivas.


Essa gente feia, pobre, marginais sociais às dezenas, por vezes centenas, e comumente milhares, insistiam em acreditar que algo de bom e surpreendente poderia visitá-los. Havia uma “mania” nessa gente, acho que influenciadas pela “histérica” visão do profeta Isaías, o qual certa vez dissera que um dia brilharia a Luz no caminho do mar, que era composto pelas cidades mais pobres da Palestina, que margeavam o mar galileu: Cafarnaum, Betsaida, Caná, Decápolis, Nazaré, Galiléia e Gerasa.


É engraçado como os pobres são parecidos no mundo todo, e em qualquer tempo, de hoje ou de ontem, sempre acreditam, sempre esperam que algo lhes possa ocorrer, algo de místico, de mágico, de libertário. E talvez seja esse o ingrediente propício para gente mal-intencionada se aproveitar de algo tão singelo que é a crença nascida da fome da alma por dias melhores, por um futuro digno, um sono tranquilo, sorriso na face e dias cingidos de esperança.


Acho que Jesus se sentia pressionado pelo grito que essa gente trazia silenciado no peito. Acho mesmo que ele sempre soube que não poderia fazer muita coisa, não poderia mudar-lhes a sorte, não poderia desenhar-lhes um novo futuro, como um tolo pintor desenha seus anseios numa tela.


O Logos, ele sim, pode libertar vidas, mesmo presas atrás de grades existênciais que não se dissolvem facilmente. Vejo os olhos do Senhor marejarem pela força da confiança no Logos de Deus, que ao encontrar gente morta, desnuda, esfarrapada, ressuscita-a, vocacionando ao novo, surpreendente em direção à Vida que todo que é nascido Dele merece e pode viver.


Os olhos são as janelas da alma..., Ele sempre soube que não poderia mudar a sua materialidade, mas, sim, a lógica da alma desprovida de sonhos, engravidando-os do Logos, que do nada pode criar, e das trevas transformar em luz que não se apaga.


Meu mestre sorri e chora, mas agora de alegria e prazer em ver gente sonhando, olhando para dentro, encontrando razão para viver e lutar; os olhos são a janela da alma...


Algumas coisas na vida são realmente nossas, pouquíssimas coisas nesta vida podemos dizer que ninguém pode nos tomar, arrebatar de nós, e acho que uma dessas pouquíssimas coisas são os nossos sonhos, nossas inspirações, nossos vôos.


Era jovem quando Leonardo Boff começou a ser processado pelo Vaticano, o que culminaria em sua expulsão da Igreja Romana, mas numa certa publicação do JB, enquanto Boff estava punido e proibido de falar, falar para a imprensa, falar como padre, falar como cidadão, falar como ser humano que era e é, o JB – para os mais jovens, JB era o melhor jornal que esse país já produziu, hoje só online – estampou uma charge que nunca mais esqueci, era uma grande gaiola fechada e dentro um minúsculo pássaro voando sorridente.


Quem pode roubar nossos sonhos, quem?


Acho que Jesus estava dizendo àquela gente miserável que ele não teria como solucionar todos os seus problemas, mas que mesmo em meio a seus dramas, e não eram poucos, elas poderiam sonhar, enxergar, ver.


Estou aqui cheio de visões, cheio de sonhos, cheio de esperanças, mesmo em meio a limitações que insistem em me intimidar e desestimular. Mas olho para o Mestre Santo e o ouço falar-me ao pé do ouvido: sonhe, sonhe, sonhe, pois toda vez que você sonhar, estará mais perto da concretude de seus devaneios.


Portanto, convido-o a sonhar, sermos “marias”, pedirmos para ser engravidados pelo Logos de quem procede a verdadeira vida que não se extingue.


Muitos e bons sonhos em 2012.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Gêmeos, mórbida semelhança




Eu não sei o que é mais desastroso para a vida da cidade maravilhosa, se o tecnocratismo expresso em sua razão fria, muitas vezes indiferente ao clamor da alma humana, ouvido nos hospitais superlotados, escolas sucateadas, ruas inseguras, ambulantes tratados como oportunistas ou bandidos, como fossem eles responsáveis pela desordem urbana; praças habitadas por mendigos esfarrapados pela irrecorrível miséria, ou habitadas por bebes cheirosos e suas babás  cuidadosas e amedrontadas por ocasionais infortúnios; morros e favelas invadidas pelas britadeiras, caminhões e centenas de peões na construção da desejada urbanidade que transparece dignidade, mas que na verdade maquia a desfaçatez do poder público que encontra rios de dinheiro para “bundalêlê”: carnaval, olimpíadas e milionários estádios de futebol para a copa do mundo, em que veremos – nos livre Deus - o show de Leonel Messi, apelidado por seus irmãos portenhos “Pulga”.


Somente um grande banho de escolas, lazer, cultura, moradias, saneamento, faria cessar vergonhoso cenário que faz desse gigante latino, ainda meio sonolento um celeiro de injustiça e vergonha social.


50% das crianças em idade escolar não sabem ler, escrever e muito menos interpretar o que lêem; outros 50% dos brasileiros não conhecem saneamento, ou seja, estão literalmente na lama. Portanto, as ações governamentais, ainda que necessárias  e benfazejas, se revelam paliativas e periféricas,  pois não são capazes de saldar a dívida social com essa gente sem visibilidade, vizinhas das valas fétidas, casas desprovidas de embolso, pintura e beleza nos becos estreitos e frios, proporcionando ambiente  adequado para o galopante avanço da tuberculose, segundo os próprios técnicos de saúde pública.


Acostumados à miséria cotidiana, como um menino de rua que agradece a generosidade do comerciante que lhe concede um pão com manteiga sem afeto ou interesse, assim é o Estado Tecnocrático, doa, mas com claro interesse de fazer desse gesto um trampolim para o próximo ano eleitoral. 


Em meio à profunda miséria, desgraça e indignidade, atenuando o clamor dos sem esperança que fingem acreditar que estão sendo atendidos e respeitados, por medo que cesse as poucas migalhas a eles misericordiosamente concedidas, gestos do Estado Tecnocrático, como: Favela Bairro, UPP, Minha Casa Minha vida, Bolsa Família, são necessários programas de inclusão social, mas que estão longe de parecer a solução de fato que passa pela reforma do Estado Brasileiro revelado nos pilares: educação, moradia, pleno emprego e saúde. Essa sim seria a necessária e sonhada refeição que mereceria ser celebrada, que revelaria o total e conseqüente desdobramento de uma nação justa e solidária que transpareceria o Reino de IAVE sonhado pelo profeta Isaías registrado no capítulo nove e onze de seu livro.


Que saco, me acho meio parecido com o Raul Seixas, que em sua canção: Ouro de Tolo se recrimina que não consegue se distrair com praia, zoológico, jornal e tobogã. Eu deveria me alegrar: Final da copa no Rio, somos a 6ª economia do mundo, os lordes comeram poeira, moro em uma confortável casa, vamos receber as olimpíadas, o Ronaldinho está no meu mengão. Entretanto, não consigo relaxar.


 Ainda para piorar meu humor e minha esperança, os evangélicos querem fazer do país um Estado Religioso, uma grande capela dançante. Para esses o Brasil deveria se transformar num grande festival de louvor e adoração. Quem sabe a solução não esteja em voltarmos a ser uma monarquia e todos nos dobrarmos como súditos diante do trono. Há uma massa que se expressa em cantarolisses, bracinhos alçados aos céus, caras torcidas como se sentissem dores nas vísceras, e muitos brados revelando um transe coletivo, uma manifestação que passa por cair no espírito, unção de leão, entre outras coisitas.


Penso em Isaías, nos apostóstolos, os pais da igreja e todos aqueles que suaram duro, deram suas vidas para trazerem o evangelho até nós e ao ver esse show de materialismos, sim, materialismo, pois uma fé fundamentada em sentimento não é fé, mas a expressão mais mística de negação de Deus. Anselmo de Cantuária diante de aprofundada discussão sobre o conhecimento do Eterno nos concede uma pérola: “se entende, esqueça! pois não é Deus”.


O que encontramos hoje é algo semelhante ao ocorrido na Idade Média onde a absoluta falta de Estado solidário e justo ocasionou o avolumamento da religiosidade supersticiosa, mecanismo eficaz que inconscientemente tentava minorar a total falta de esperança popular por um futuro melhor.


Hoje vemos expressa nas religiões recém criadas a partir da década de 70/80 uma eficaz proposta de ocupar os hiatos deixados pelo ineficaz Estado Brasileiro ao pregarem um deus forte, exagerado e materialista, aprisionado pelo desejo imperativo de seus súditos que ordenam, impõem e o repreendem caso não sejam satisfeitos em seus caprichos.


 Mister se fez criar uma teologia e um deus que se ocupe do reino que está latente aqui e agora, que como inteligente empresário atenda a demanda do mercado que clama por saúde, segurança, habitação e empregabilidade, e, é claro, lazer, e aí entra o eficaz ópio, as cantarolices que enlevam, hipnotizam, anestesiam, impedindo a reflexão, análise crítica e conexão com o desagradável mundo real que roga por efetiva atuação da verdadeira Igreja cristã que se alimenta de justiça, verdade e clamor de seu povo.


O Estado Tecnocrático e o Estado Religioso são faces opostas de uma mesma moeda, não são e nunca foram antagônicos, no máximo podemos dizer que se confrontam pelo mesmo ideário, são ambos materialistas e pouco se importam com o cidadão, mas se abastecem de seus sonhos pelos quais lucram e sedimentam seu império que tem seu fundamento na ignorância e ilusão.


O poder de Deus é incomparável, superior e incomensurável, mas a grande contradição desse poder é que ele não se satisfaz em si mesmo, mas ao contrário, todo poder de Deus só tem uma aplicação que é para o serviço e felicidade do homem, e somente por isso que o Cristo de Deus sendo quem é não vê graça nenhuma em toda a sua exuberante majestade se esta não é direcionada a servir a humanidade, e por isso o Mestre Santo esvazia-se, lava os pés imundos dos pecadores, partilha do pão e da simplicidade, se muda para a paupérrima Cafarnaum, repreende violentamente Pedro, chegando a chingá-lo de demônio, quando esse tenta seduzi-lo a servir a si mesmo.


O Estado Religioso e o Tecnocrata não estão interessados nisso, ou seja, no serviço gracioso , espontâneo e desprovido de realeza, mas bem ao contrário, moram em palácios, consomem o melhor desta terra, freqüentam a luxúria e o extremo conforto, absolutamente assemelhados aos sem Deus, pois afinal são filhos do mesmo pai e gerados num mesmo útero.


Peço licença a Leonardo Boff para citá-lo. Ao visitar pela primeira vez o Vaticano, ainda como jovem padre, ficou absolutamente chocado diante de tal exuberância e riqueza, e concluiu Boff: “não sei o que é cristianismo, mas isso eu sei que não é”. Exatamente assim que me sinto, não entendo muito de Deus, ele não se deixa definir tão facilmente, mas sinto dentro de minha alma que isso que aí está e que se chama evangelho e evangélicos, isso não me parece Deus, o Jesus histórico, o Nazareno, o Profeta do burrinho.

domingo, 25 de dezembro de 2011

É Natal e tenho um pedido...


Tal qual a naturalidade de um passarinho que saúda com seu suave a sedutor canto todos os dias, que graciosamente o Senhor lhe dá, também assim somos presenteados com a brisa matinal e um dia quente ou não, mas que sempre é carimbado pela graça Dele, que curiosamente, sem que eu entenda bem, insiste em nos amar e pensar bem de nós, mesmo que continuemos tantas vezes a nos distrair e banalizar seus favores e bondade.
 

Pode parecer estranho, mas minha fé é calçada de muitas incertezas, inseguranças e incontáveis medos, mas há algo em que tenho procurado a cada dia mais alicercar-me, qual seja, na certeza de que Deus me ama. Ainda que seja muito incoerente, pois normalmente tendo a receber amor de quem dispensei amor primeiro.


Tem feito a grande diferença em minha vida me apropriar de algo tão profundamente louco quanto libertador: "Deus me ama, e não importa o quanto meus pensamentos, minhas atitudes incoerentes, minha própria boca afirme desconfiança, Ele me ama..." São muitos sons, seduções variadas, evangelhos, pastores, pastoras, bispos, apóstolos, e o que é pior: evangélicos aos milhares fazendo lembrar a extensão de um grande oceano. Mas é só lembrar, pois a reflexão, compreensão e indepedência destes revela a profundidade de uma piscina infantil.
 

É Natal, e declino aqui meu pedido Àquele que transforma as coisas que não são em realidade concreta; Àquele que podendo atirar pedras, escolhe estender a mão e oportunar a continuidade da vida; Àquele que não discrimina ninguém, mas tem uma "quedinha" pelos mansos e simples de espírito.


É Natal e tenho um pedido. Sei que vou pedir muito, mas como também sei que Ele tudo pode, lhe peço que meus olhos possam testemunhar o Estado do Rio de Janeiro contando com homens e mulheres que se chamem pelo Seu nome se indignam pela corrupção que envolve religiosos, pastores e líderes que mercantilizaram a beleza do evangelho, fazendo lembrar aqueles que retiram da pureza de crianças/adolescentes seu sustento, aviltando e sequestrando sua ingenuidade através de jogos de exploração sexual.


Desejo ver o povo cristão levantar-se com a mesma fúria contra a classe política inescrupulosa, tanto quanto o faz contra a minoria LGBTS; Eu peço a Ele que todos os que levantamos as mãos em Seu louvor, nos manifestemos publicamente contra o descaso com a educação fundamental em nosso estado, como nos mobilizamos para festivais e musicais religiosos; peço ao menino que cresceu e tornou-se a maior autoridade em milagres, pois converter o coração de uma pessoa e perdoar seus pecados não há igual.


Eu Lhe peço que meus olhos ainda vejam os jovens apaixonados por Ele, e também nós - os adultos - levantemos orações como o fazemos para o Brasil se tornar evangélico; que o façamos com igual fervor para que o Brasil se torne uma nação justa, igual e livre da intolerância e preconceito religiosos, pois sei que o filho do carpinteiro soube bem os danos de ser pobre, trabalhador braçal e hebreu.


Feliz Natal!